quarta-feira, 12 de outubro de 2016

POR:
Emilia dos Santos Gomes
Marta Mendes Valadares 
Shayenne Bueno da Silva

DESAFIOS À ATUAÇÃO DO PEDAGOGO NA ESCOLA

                  Na década de 1960, quando começamos a frequentar a escola pública, o máximo da transgressão de comportamento era a bagunça na sala de aula. Daí a professora mandava que nos apresentássemos na sala da diretora, onde ficávamos de castigo copiando algum texto, até a hora da saída. No dia seguinte, o responsável deveria comparecer à escola para tomar conhecimento do nosso mau comportamento. No âmbito domiciliar, recebíamos o castigo que os pais achassem por bem aplicar: ficar sem brincar na rua, sem bonecas ou carrinhos, ou sem ver os desenhos preferidos na televisão. Hoje, passadas algumas décadas, o relacionamento entre aluno e instituição escolar; entre pais e filhos mudou radicalmente... para pior.
                A influência da mídia, que apresenta violência cotidianamente, os desmandos no cenário político, as péssimas condições de ensino, a falta de políticas públicas para resolver o sucateamento dos prédios escolares, o afastamento e desinteresse da família, têm contribuído para o incremento da violência no âmbito escolar. Pois se o aluno não encontra na escola o seu ideal de comportamento, de esperança, de perspectiva, ele entende que o bem público não pertence a ninguém, entende que sua última expectativa falhou e descarrega todo o seu desapontamento no espaço em que ele se sente confortável para fazê-lo. 
Professora Dra. Tânia Mara Tavares da Silva - UNIRIO
OS ESPECIALISTAS NA EFICÁCIA PARENTAL E OS CONFLITOS NA
RELAÇÃO FAMÍLIA E ESCOLA (NOTAS SOBRE CONTRADIÇÕES DO
PROCESSO CIVILIZADOR).
      “Tomo como ideia central que a intervenção dos especialistas para a melhoria da eficácia parental deixa “invisível” a figura materna na escola. Assim, como o âmbito educacional continua a priorizar o apoio da família para a realização de uma educação eficaz, a invisibilidade da mulher/mãe faz emergir conflitos muitas vezes insolúveis. Portanto, veremos como dois processos civilizadores: a ampliação da intervenção dos especialistas na família e a educação universal promovem contradições sociais que devem ser dimensionadas pelo campo da educação.
     A aliança família-escola cunhada no século 19 é um suposto que continua a vigorar no século 21. Mas de qual família estamos falando? A da cartilha que é evidentemente uma família de camada média estruturada no modelo nuclear (pai, mãe e filhos) ou da família que hoje se estrutura (independentemente da camada social) com arranjos muito diferentes? Ou, e é o que defenderei aqui: a escola ainda não percebeu a pluralidade de modelos com os quais a família está organizada hoje? Ou, e aqui me reporto a Elias (1994), os conflitos e contradições são parte da vida social e apenas estamos assistindo a um momento no qual eles se acentuam, dadas a mudanças nas configurações da família e da escola?
     Cadê a família que estava aqui? Não deverá encontrar respostas tão simples como as da brincadeira infantil, pois geralmente incluem tantas possibilidades para a sua invisibilidade no âmbito escolar como, por exemplo, a TV; o videogame; o computador, geralmente vistos como “inimigos” da escola, que na maioria das vezes paralisam ações ou, como nos exemplos citados, retomam a necessidade da aliança. Porém, dentre todos os “inimigos” destaca-se o descaso da família com os seus filhos, principalmente a mãe cujo tempo está focado cada vez mais no mundo do trabalho.
     Quando se analisa relação família e escola, é quase inexorável voltar-se para o estudo clássico de Ariès (1981) que aponta como já mencionamos o século 19 como o período em que se consolidou a aliança entre ambas. Para este autor, uma das formas de expressão de carinho e atenção que as famílias deveriam devotar aos filhos se expressava por uma preocupação com a escolarização que as preparava para o mundo adulto. Ou seja, preocupar-se com a educação dos filhos seria tão vital quanto à preocupação com sua higiene e saúde.
      As mudanças operadas tanto no interior da escola quanto na família alteraram e contribuíram para o que denomino esgarçamento da aliança. (Silva, 2003 op. cit). Um dos pontos centrais é a alteração na forma de as crianças estarem na escola, principalmente, as decorrentes da escola de tempo integral. De acordo com Lovisolo (op. cit) este formato fez com que a escola se tornasse um lugar onde a “tia” é tia de fato. Ou seja, intentou cumprir um papel que não era o seu e, paradoxalmente, atua no sentido de manter a aliança. Além disto, um outro fenômeno, o do “fim da infância” tem sido objeto de preocupação dos educadores principalmente no que se refere a sua relação com o aumento da indisciplina e ausência de limites por parte de crianças e adolescentes. Para os educadores isto ocorre porque a família, cada vez mais, tem deixado a cargo da escola noções básicas de formação. Como consequência, a sala de aula, corredores e pátios se teria tornado uma praça de guerra na maioria das escolas gerando, inclusive, um novo fenômeno, o bullying (Simmons, 2004; Fante, 2005).
     Ao que parece, a intervenção dos especialistas que transformou deliberadamente a forma de se viver o espaço doméstico ao mesmo tempo, e este é um dado fundamental, consolidou a ideia da incompetência da família de educar para o coletivo, e para a solidificação desta visão, participavam, principalmente, as profissões assistenciais.
     Este processo histórico (e civilizador, nos termos de Elias) fez a família refém da escola, da medicina, dos assistentes sociais, dos psicólogos, enfim, daqueles que se proclamam conhecedores da forma como a criança e o adolescente devam ser educados. Como já mencionado, no caso brasileiro, as escolas em tempo integral cumprem cada vez mais o papel da família.
     Se aceitarmos o raciocínio de Lasch, a reação de fuga da escola por parte da família parece adquirir alguma lógica. Quem sabe, estejam realizando considerações do tipo: ‘na escola, desde a mais tenra infância, meu filho terá uma educação correta, já que ela vai acontecer nos moldes previstos pela ciência e não por minhas ideias instintivas’. Ou, ‘como o trabalho me absorve o dia inteiro, deixemos a educação dos nossos filhos nas mãos dos que podem e devem educá-los’. Paradoxalmente, quando algo ruim ocorre (algum ato de indisciplina; notas baixas, por exemplo) e os pais são chamados, eles se valem da ideia de que a escola deve educar ou, baseados em informações de natureza diversa (mídias faladas e escritas e leis como o Estatuto da Criança e do Adolescente) querem interferir na forma como a escola deve agir em relação ao filho, particularmente, no que se refere às punições”.

Bibliografia:
ARIÈS, P. História Social da Criança e da Família. Rio de Janeiro: Guanabara, 1981.
ELIAS, N. A Sociedade dos Indivíduos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1994.
ELIAS, N. O Processo Civilizador: uma história dos costumes. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, (1993) 2 v.
FANTE, C. Fenômeno Bullying: como prevenir a violência nas escolas e educar para a paz. Campinas, SP: Verus Editora, 2005.
LASCH, C. Refúgio em um mundo sem coração. A família: santuário ou instituição sitiada. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1991.
LOVISOLO, H. “Escola e família: constelação imperfeita.” Revista Ciência Hoje, vol.6 n.31, maio de 1987.
SENNA, UNAIDS, Banco Mundial, USAID, Fundação Ford, CONSED, UNDIME, 2002.
SILVA, T.M.T. Família & Escola: “Mamãe a Professora Quer Falar com Você, Eu Não Fiz Nada”. In: EVANGELISTA F. GOMES T. P Educação para ‘O Pensar’ Campinas: Alínea, 2003.
SIMMONS, R. Garota Fora do Jogo: a cultura oculta da agressão das meninas. Rio de Janeiro: Rocco, 2004.

ENTREVISTA

Entrevista com M.J. Duarte Antunes, professora do município, vítima de agressão por aluno do 3º ano do ensino fundamental.
P- Como tudo aconteceu?
R- Eu estava distribuindo umas folhas para fazer atividades de matemática, de repente, quando eu estava no fundo da sala, o aluno se levantou e empunhando um canivete, começou a gritar dizendo que não faria a atividade pois não gostava de matemática e nem de mim (ele havia tirado uma péssima nota na avaliação anterior). Eu tentei acalmá-lo e acalmar a turma, que nesse momento estava paralisada, em estado de choque (em alguns dias, eu tenho mais de 35 alunos em sala).  Foi aí que ele me atacou e conseguiu desferir alguns golpes que cortaram meu braço e minhas mãos. O inspetor de alunos, ouvindo os gritos, conseguiu chamar socorro e fui levada ao hospital e o menino retirado da sala de aula.
P- Você voltou à escola?
R- Não. Não tive coragem e, até hoje, evito passar por perto. Sinceramente, não quis nem saber o que houve com o menino. Estou sob tratamento psiquiátrico, pois tenho pesadelos horríveis, quase não saio e não tenho me alimentado bem.
P- O que você acha que desencadeou o comportamento do aluno?
R- Pelo relato dele, há algum tempo, a família é completamente desestruturada. O pai e a mãe estão presos. Ele é criado pelos avós, entre outros dez netos. A avó e o avô trabalham fora. Lembro que num mural de desejos para o dia das crianças, ele escreveu: 'gostaria que minha avó não me xingasse’...
P- Qual o seu sentimento em relação a esse aluno?
R- Pena. Muita pena. Pena por não poder fazer nada por ele. Sinceramente, eu não tomei conhecimento do que aconteceu posteriormente, porque me sinto impotente para tomar qualquer decisão. Não quero saber.
P- Você vai voltar a lecionar?
R- Acredito que nem tão cedo. Estou ainda muito traumatizada. Mas minha vocação é ensinar. Não sei como vai ficar isso na minha cabeça. Por enquanto, não tenho condições de enfrentar uma sala de aula.
P- Qual a atitude das gestoras frente ao ocorrido?
R- Elas procuraram me dar todo o apoio que podiam. Tenho conversado muito com a coordenadora pedagógica, enfatizando sempre o fato de que as escolas deveriam ter em suas dependências um suporte social, de saúde e principalmente psicológico, para orientar os alunos e suas famílias nesses casos tão tristes de abandono familiar, de violência domiciliar. Há tantos assistentes sociais procurando uma oportunidade de trabalhar, de colocar seus conhecimentos em prática... Seria de grande valia se os gestores da educação pensassem nisso.

DEPOIMENTO
Depoimento de R.C. de Souza Amaral, coordenadora pedagógica de escola do município do Rio de Janeiro.
“As intervenções do gestor nos casos de violência ocorridos no ambiente escolar, se limitam ao contato com o conselho tutelar da área, para que os pais sejam intimados a comparecer ao órgão competente para tomar conhecimento do ocorrido. Não temos o acesso desejado ao desdobramento dos casos. No âmbito da escola podemos suspender o aluno e só. Nenhuma medida punitiva no ambiente escolar nos é permitida. Assim ficamos reféns de alunos violentos e/ou perigosos, principalmente os adolescentes. Foi-nos relatado que em escola vizinha, os alunos da Educação de Jovens e Adultos agrediram o diretor que não quis fornecer janta para os amigos não estudantes desses adolescentes. Em outra, uma aluna, também da turma do EJA, agrediu uma professora que estabeleceu horário para o uso do banheiro, já que as constantes saídas dos alunos com essa alegação atrapalhavam o desenvolvimento da aula e pressupunha o uso de drogas no banheiro”.



Um comentário:

  1. Precisamos de uma Educação que eduque para a tolerância, a compreensão, a cidadania, a aproximação e o crescimento.

    Maria Clara Fajardo - mat. 14212080056

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