POR:
Emilia dos Santos Gomes
Marta Mendes Valadares
Shayenne Bueno da Silva
DESAFIOS À ATUAÇÃO DO PEDAGOGO NA
ESCOLA
Na década de 1960, quando começamos a
frequentar a escola pública, o máximo da transgressão de comportamento era a
bagunça na sala de aula. Daí a professora mandava que nos apresentássemos na
sala da diretora, onde ficávamos de castigo copiando algum texto, até a hora da
saída. No dia seguinte, o responsável deveria comparecer à escola para tomar
conhecimento do nosso mau comportamento. No âmbito domiciliar, recebíamos o
castigo que os pais achassem por bem aplicar: ficar sem brincar na rua, sem
bonecas ou carrinhos, ou sem ver os desenhos preferidos na televisão. Hoje,
passadas algumas décadas, o relacionamento entre aluno e instituição escolar;
entre pais e filhos mudou radicalmente... para pior.
A influência da mídia, que
apresenta violência cotidianamente, os desmandos no cenário político, as
péssimas condições de ensino, a falta de políticas públicas para resolver o
sucateamento dos prédios escolares, o afastamento e desinteresse da família,
têm contribuído para o incremento da violência no âmbito escolar. Pois se o
aluno não encontra na escola o seu ideal de comportamento, de esperança, de
perspectiva, ele entende que o bem público não pertence a ninguém, entende que
sua última expectativa falhou e descarrega todo o seu desapontamento no espaço
em que ele se sente confortável para fazê-lo.
Professora
Dra. Tânia Mara Tavares da Silva - UNIRIO
OS ESPECIALISTAS NA EFICÁCIA
PARENTAL E OS CONFLITOS NA
RELAÇÃO FAMÍLIA E ESCOLA (NOTAS
SOBRE CONTRADIÇÕES DO
PROCESSO CIVILIZADOR).
“Tomo
como ideia central que a intervenção dos especialistas para a melhoria da
eficácia parental deixa “invisível” a figura materna na escola. Assim, como o
âmbito educacional continua a priorizar o apoio da família para a realização de
uma educação eficaz, a invisibilidade da mulher/mãe faz emergir conflitos
muitas vezes insolúveis. Portanto, veremos como dois processos civilizadores: a
ampliação da intervenção dos especialistas na família e a educação universal
promovem contradições sociais que devem ser dimensionadas pelo campo da
educação.
A
aliança família-escola cunhada no século 19 é um suposto que continua a vigorar
no século 21. Mas de qual família estamos falando? A da cartilha que é
evidentemente uma família de camada média estruturada no modelo nuclear (pai,
mãe e filhos) ou da família que hoje se estrutura (independentemente da camada
social) com arranjos muito diferentes? Ou, e é o que defenderei aqui: a escola
ainda não percebeu a pluralidade de modelos com os quais a família está
organizada hoje? Ou, e aqui me reporto a Elias (1994), os conflitos e
contradições são parte da vida social e apenas estamos assistindo a um momento
no qual eles se acentuam, dadas a mudanças nas configurações da família e da
escola?
Cadê a família que estava aqui? Não deverá
encontrar respostas tão simples como as da brincadeira infantil, pois
geralmente incluem tantas possibilidades para a sua invisibilidade no âmbito
escolar como, por exemplo, a TV; o videogame; o computador, geralmente vistos
como “inimigos” da escola, que na maioria das vezes paralisam ações ou, como
nos exemplos citados, retomam a necessidade da aliança. Porém, dentre todos os
“inimigos” destaca-se o descaso da família com os seus filhos, principalmente a
mãe cujo tempo está focado cada vez mais no mundo do trabalho.
Quando se analisa relação família e
escola, é quase inexorável voltar-se para o estudo clássico de Ariès (1981) que
aponta como já mencionamos o século 19 como o período em que se consolidou a
aliança entre ambas. Para este autor, uma das formas de expressão de carinho e
atenção que as famílias deveriam devotar aos filhos se expressava por uma
preocupação com a escolarização que as preparava para o mundo adulto. Ou seja,
preocupar-se com a educação dos filhos seria tão vital quanto à preocupação com
sua higiene e saúde.
As
mudanças operadas tanto no interior da escola quanto na família alteraram e
contribuíram para o que denomino esgarçamento da aliança. (Silva, 2003 op.
cit). Um dos pontos centrais é a alteração na forma de as crianças estarem na
escola, principalmente, as decorrentes da escola de tempo integral. De acordo
com Lovisolo (op. cit) este formato fez com que a escola se tornasse um lugar
onde a “tia” é tia de fato. Ou seja, intentou cumprir um papel que não era o
seu e, paradoxalmente, atua no sentido de manter a aliança. Além disto, um
outro fenômeno, o do “fim da infância” tem sido objeto de preocupação dos
educadores principalmente no que se refere a sua relação com o aumento da
indisciplina e ausência de limites por parte de crianças e adolescentes. Para
os educadores isto ocorre porque a família, cada vez mais, tem deixado a cargo
da escola noções básicas de formação. Como consequência, a sala de aula,
corredores e pátios se teria tornado uma praça de guerra na maioria das escolas
gerando, inclusive, um novo fenômeno, o bullying
(Simmons, 2004; Fante, 2005).
Ao que parece, a intervenção dos
especialistas que transformou deliberadamente a forma de se viver o espaço
doméstico ao mesmo tempo, e este é um dado fundamental, consolidou a ideia da
incompetência da família de educar para o coletivo, e para a solidificação
desta visão, participavam, principalmente, as profissões assistenciais.
Este processo histórico (e civilizador,
nos termos de Elias) fez a família refém da escola, da medicina, dos
assistentes sociais, dos psicólogos, enfim, daqueles que se proclamam
conhecedores da forma como a criança e o adolescente devam ser educados. Como
já mencionado, no caso brasileiro, as escolas em tempo integral cumprem cada
vez mais o papel da família.
Se aceitarmos o raciocínio de Lasch, a
reação de fuga da escola por parte da família parece adquirir alguma lógica.
Quem sabe, estejam realizando considerações do tipo: ‘na escola, desde a mais tenra infância, meu filho terá uma educação
correta, já que ela vai acontecer nos moldes previstos pela ciência e não por
minhas ideias instintivas’. Ou, ‘como
o trabalho me absorve o dia inteiro, deixemos a educação dos nossos filhos nas
mãos dos que podem e devem educá-los’. Paradoxalmente, quando algo ruim
ocorre (algum ato de indisciplina; notas baixas, por exemplo) e os pais são
chamados, eles se valem da ideia de que a escola deve educar ou, baseados em
informações de natureza diversa (mídias faladas e escritas e leis como o
Estatuto da Criança e do Adolescente) querem interferir na forma como a escola
deve agir em relação ao filho, particularmente, no que se refere às punições”.
Bibliografia:
ARIÈS, P. História Social da
Criança e da Família. Rio de Janeiro: Guanabara, 1981.
ELIAS, N. A Sociedade dos
Indivíduos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1994.
ELIAS, N. O Processo Civilizador:
uma história dos costumes. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, (1993) 2 v.
FANTE, C. Fenômeno Bullying: como
prevenir a violência nas escolas e educar para a paz. Campinas, SP: Verus
Editora, 2005.
LASCH, C. Refúgio em um mundo sem
coração. A família: santuário ou instituição sitiada. Rio de Janeiro: Paz e
Terra, 1991.
LOVISOLO, H. “Escola e família:
constelação imperfeita.” Revista Ciência Hoje, vol.6 n.31, maio de 1987.
SENNA, UNAIDS, Banco Mundial,
USAID, Fundação Ford, CONSED, UNDIME, 2002.
SILVA, T.M.T. Família &
Escola: “Mamãe a Professora Quer Falar com Você, Eu Não Fiz Nada”. In:
EVANGELISTA F. GOMES T. P Educação para ‘O Pensar’ Campinas: Alínea, 2003.
SIMMONS, R. Garota Fora do Jogo:
a cultura oculta da agressão das meninas. Rio de Janeiro: Rocco, 2004.
ENTREVISTA
Entrevista
com M.J. Duarte Antunes, professora do município, vítima de agressão por aluno
do 3º ano do ensino fundamental.
P- Como tudo aconteceu?
R- Eu estava distribuindo umas folhas
para fazer atividades de matemática, de repente, quando eu estava no fundo da
sala, o aluno se levantou e empunhando um canivete, começou a gritar dizendo
que não faria a atividade pois não gostava de matemática e nem de mim (ele
havia tirado uma péssima nota na avaliação anterior). Eu tentei acalmá-lo e
acalmar a turma, que nesse momento estava paralisada, em estado de choque (em
alguns dias, eu tenho mais de 35 alunos em sala). Foi aí que ele me atacou e conseguiu desferir
alguns golpes que cortaram meu braço e minhas mãos. O inspetor de alunos,
ouvindo os gritos, conseguiu chamar socorro e fui levada ao hospital e o menino
retirado da sala de aula.
P- Você voltou à escola?
R- Não. Não tive coragem e, até hoje,
evito passar por perto. Sinceramente, não quis nem saber o que houve com o
menino. Estou sob tratamento psiquiátrico, pois tenho pesadelos horríveis, quase
não saio e não tenho me alimentado bem.
P- O que você acha que desencadeou o
comportamento do aluno?
R- Pelo relato dele, há algum tempo, a
família é completamente desestruturada. O pai e a mãe estão presos. Ele é
criado pelos avós, entre outros dez netos. A avó e o avô trabalham fora. Lembro
que num mural de desejos para o dia das crianças, ele escreveu: 'gostaria que
minha avó não me xingasse’...
P- Qual o seu sentimento em relação a
esse aluno?
R- Pena. Muita pena. Pena por não poder
fazer nada por ele. Sinceramente, eu não tomei conhecimento do que aconteceu
posteriormente, porque me sinto impotente para tomar qualquer decisão. Não
quero saber.
P- Você vai voltar a lecionar?
R- Acredito que nem tão cedo. Estou
ainda muito traumatizada. Mas minha vocação é ensinar. Não sei como vai ficar
isso na minha cabeça. Por enquanto, não tenho condições de enfrentar uma sala
de aula.
P- Qual a atitude das gestoras frente
ao ocorrido?
R- Elas procuraram me dar todo o apoio
que podiam. Tenho conversado muito com a coordenadora pedagógica, enfatizando
sempre o fato de que as escolas deveriam ter em suas dependências um suporte
social, de saúde e principalmente psicológico, para orientar os alunos e suas
famílias nesses casos tão tristes de abandono familiar, de violência
domiciliar. Há tantos assistentes sociais procurando uma oportunidade de
trabalhar, de colocar seus conhecimentos em prática... Seria de grande valia se
os gestores da educação pensassem nisso.
DEPOIMENTO
Depoimento de R.C. de Souza Amaral,
coordenadora pedagógica de escola do município do Rio de Janeiro.
“As intervenções do gestor nos casos de
violência ocorridos no ambiente escolar, se limitam ao contato com o conselho
tutelar da área, para que os pais sejam intimados a comparecer ao órgão
competente para tomar conhecimento do ocorrido. Não temos o acesso desejado ao
desdobramento dos casos. No âmbito da escola podemos suspender o aluno e só.
Nenhuma medida punitiva no ambiente escolar nos é permitida. Assim ficamos
reféns de alunos violentos e/ou perigosos, principalmente os adolescentes.
Foi-nos relatado que em escola vizinha, os alunos da Educação de Jovens e
Adultos agrediram o diretor que não quis fornecer janta para os amigos não
estudantes desses adolescentes. Em outra, uma aluna, também da turma do EJA,
agrediu uma professora que estabeleceu horário para o uso do banheiro, já que
as constantes saídas dos alunos com essa alegação atrapalhavam o
desenvolvimento da aula e pressupunha o uso de drogas no banheiro”.